“EU NÃO FUI FORMADO PARA ISSO”: O DILEMA DOS PROFESSORES NA PANDEMIA

*Prof. Me. Paulo A. Pasqual Júnior.

Se tem algo que está evidente durante essa pandemia é a falta de habilidade de boa parte dos professores para lidar com os recursos digitais.  Muitos professores simplesmente davam suas aulas à moda clássica, sem ter de se preocupar com muitos recursos além do caderno, quadro, livro didático e, de vez enquando, o projetor.

Contudo, de uma hora para outra, as coisas mudaram e muitos que eram receosos em adquirir novos métodos, se viram obrigados a utilizar ambientes virtuais de aprendizagem, videoconferências e outras estratégias digitais.

Esses dias eu ouvi uma professora falando uma frase que professor adora falar “Eu não fui formada para isso.” Durante a minha carreira docente, por muitas vezes eu ouvi esta célebre frase em cursos de formação. Ela funciona como uma justificativa para uma imperícia para a utilização da informática. Inclusive ela é muito frequente.

Essas frases me chamam a atenção porque elas estão muito presentes nas narrativas dos professores e não apenas no Brasil. Para minha surpresa, durante a minha pesquisa de mestrado, eu utilizei uma plataforma de formação de professores em que havia postagens de profissionais da educação de vários lugares do mundo,  mas principalmente nos EUA.  Muitos professores reclamavam das tecnologias na educação, assim como os professores no Brasil.

Uma das frases de professores dos Estados Unidos foi “Esta é a minha primeira vez e estou lutando para entender. […]. É difícil ficar animado com algo que estou lutando comigo mesmo.”

Quando li essa e outras frases percebi que, por algum motivo, muitos professores no mundo inteiro possuem aversão em relação à tecnologia. Eu realmente não sei o porquê disso, e eu teria de fazer uma pesquisa exclusiva que investigasse essa questão.

O que quero refletir nesse texto é que existem muitos professores com dificuldades (não apenas no Brasil) com o uso de tecnologias,  nesse momento de pandemia. Muitos professores foram obrigados a aprenderem “na marra” o que de certa forma mostrou a todos que não há como ser professor sem conhecer o mínimo de tecnologia, independente do professor gostar ou não, pois computadores, internet, vídeos, e ambientes virtuais são os recursos para o professor do século XXI.

Alguns dias atrás, ouvi uma professora falar que “não teve formação” para trabalhar com esses ambientes.   O que eu custo a acreditar. Afinal, há mais de 30 anos as escolas no Brasil têm promovido iniciativas que possibilitem contato com tecnologias educacionais.

E aqui poderíamos listar uma infinidade de projetos de governos em âmbito municipal, estadual e federal que, de alguma forma, mobilizaram escolas e professores para se aproximarem das tecnologias educacionais.

Acontece que mesmo assim, alguns professores poderiam dizer que essas iniciativas foram poucas e isoladas e não contemplaram a grande maioria.  Eu acredito que isso realmente possa ser verdade. Também acredito que muitos professores estão tão cansados, atarefados e desmotivados em relação à carreira docente que preferem nem participar de formações.  Pensam que os salários são tão baixos que realmente não vale a dedicação e a participação em formações fora do horário de trabalho, ou ainda, que  o investimento financeiro para formações financiados por eles mesmos é algo descabido.

Eu inclusive acho que todos esses argumentos são justos. Afinal, como exigir do professor que participe se ele, muitas vezes, nem salário recebe?

Então, não quero que os meus colegas me interpretem mal ao lerem esse texto. Eu realmente entendo cada professor que preferiu não participar de formação porque não tinha condições naquele momento, ou ainda, que  optou por não se aproximar das tecnologias porque pensou que realmente não seria necessário.

Acontece que apesar de todas as razões que os professores tiveram para não participarem de formações ou não fazerem cursos por conta própria, a realidade de hoje é clara! Não há como ser professor sem conhecer o mínimo de recursos digitais.

Então, se você quer continuar na carreira docente ( e você não precisa querer, afinal os desafios são realmente enormes) é preciso se atualizar o quanto antes e, sobretudo, não esperar pelas iniciativas e políticas públicas, porque elas podem não existir.

O professor do século XXI não pode mais justificar a sua imperícia tecnológica na sua formação que aconteceu no século XX.  Essa justificativa não cabe mais, nem mesmo nos discursos.  Em qualquer profissão a atualização é necessária constantemente e, no caso da docência, essa atualização precisa ser ainda maior!

Se você não aprendeu sobre tecnologias educacionais na sua graduação, isso não é justificativa; ninguém se “forma” em algo e está pronto para atuar para sempre. É preciso continuar a formação.   Um arquiteto, engenheiro ou médico que se formou há dez ou vinte anos atrás também não foi formado para utilizar as tecnologias atuais. Então, fica claro que esse “ eu não fui formado para isso”, não cola!  Será que os médicos saíram por aí dizendo que não podiam atender pacientes com COVID- 19 porque não foram formados para isso?

Para mudar essa situação, você pode começar por participar dos encontros que a sua rede de ensino proporciona, seja ela particular ou pública. Se eles não acontecem ou acontecem com pouca frequência, é possível aprender na internet com os inúmeros conteúdos disponíveis para professores.

Se mesmo assim você não curtir, leia um livro. Há muitos que se referem às tecnologias educacionais.  O livro “Pensamento Computacional e Tecnologias: Reflexões sobre a educação no Século XXI” é um deles. Nele eu reflito sobre diversas óticas sobre as tecnologias educacionais, inclusive arriscando algumas previsões abordando o futuro da sala de aula.  O professor do tempo presente, assim como qualquer outro profissional, precisa  ser como como um aplicativo de smartphone: estar constantemente fazendo download de novas atualizações.

Para concluir, quero reforçar o meu ponto de vista: entendo  e muitas vezes eu compartilho a frustração dos professores em relação à carreira, reconhecimento e as múltiplas adversidades que os professores vivem, mas quero delinear que não há mais como voltar atrás. A tecnologia veio para ficar e é preciso  atualizar-se sem esperar que alguém faça isso por você, obviamente, se você  ainda realmente deseja permanecer na carreira docente.

 

Este texto foi originalmente publicado no blog do autor, disponível em www.pasqualjr.com.br.